Intolerância à lactose e SIBO: quando fazer o teste respiratório?

Por Dra. Juliana Corrêa, gastropediatra (CRM/RJ 5299302-6 | RQE 30792) · Publicado em 13 de julho de 2026

Barriga estufada, gases, dor que vai e volta, e você já não sabe se o problema é o leite, a alimentação ou outra coisa? Existe um exame simples que ajuda a responder essa pergunta sem agulha e sem sofrimento. Em resumo: o teste respiratório mede os gases do ar expirado e é usado para investigar a intolerância à lactose e o SIBO, o supercrescimento bacteriano do intestino delgado. A criança sopra em um aparelho em intervalos regulares e o exame dura em torno de 2 a 3 horas. Ele é indicado quando os sintomas digestivos persistem e a consulta levanta a suspeita de uma dessas condições. Realizo os dois testes no meu consultório, em Campos dos Goytacazes.

O que é intolerância à lactose?

A lactose é o açúcar do leite. Para digeri-la, o intestino usa uma enzima chamada lactase. Quando essa enzima está em falta, a lactose segue sem ser digerida até o intestino grosso, onde é fermentada pelas bactérias. O resultado a família conhece bem: gases, estufamento, dor de barriga e diarreia depois de leite e derivados.

Em crianças, o mais comum é a chamada intolerância primária, que aparece aos poucos com o passar dos anos, em geral a partir da idade escolar. Existe também a forma secundária, temporária, que surge depois de uma gastroenterite ou de outra agressão ao intestino e melhora quando a mucosa se recupera. A forma congênita, presente desde o nascimento, é muito rara.

Vale repetir um ponto que gera muita confusão: intolerância à lactose não é alergia ao leite. A APLV, típica de bebês no primeiro ano de vida, envolve o sistema imunológico e tem outro caminho de investigação. Escrevi um texto completo sobre APLV para quem está nessa dúvida.

O que é SIBO?

SIBO é a sigla em inglês para supercrescimento bacteriano do intestino delgado. O intestino delgado normalmente tem poucas bactérias. Quando elas se multiplicam ali além da conta, passam a fermentar o alimento antes da hora, e a criança sente estufamento, gases, dor abdominal e alteração do ritmo intestinal, que pode ser diarreia ou prisão de ventre.

No consultório, o SIBO entra na investigação quando os sintomas não se explicam por outras causas mais comuns, ou quando existe alguma condição que favorece esse desequilíbrio. É um diagnóstico que exige critério: nem toda barriga estufada é SIBO, e tratar sem confirmar significa dar antibiótico a uma criança sem necessidade.

Como funciona o teste respiratório?

O princípio é simples. Quando as bactérias fermentam um açúcar no intestino, produzem gases como o hidrogênio, que caem na corrente sanguínea e saem pela respiração. O aparelho mede esses gases no ar que a criança expira.

Na prática, o exame começa com uma medida em jejum. A criança então toma uma solução, que contém lactose no teste de intolerância ou outro substrato no teste de SIBO, e sopra no bocal do aparelho em intervalos regulares. O exame todo dura em torno de 2 a 3 horas, e a criança pode trazer um livro ou tablet para passar o tempo entre um sopro e outro.

Não há agulha nem qualquer procedimento invasivo. O que pode acontecer, quando a condição investigada existe de fato, é a criança apresentar os sintomas habituais de forma leve durante o exame, como gases e desconforto. Isso também é informação: ajuda a ligar o resultado do aparelho ao que a família observa em casa.

Quando o teste respiratório é indicado?

A ordem importa: primeiro a avaliação, depois o exame. Os sintomas dessas condições se parecem muito entre si e com outras causas de dor abdominal na infância. É a consulta que define se o teste é necessário, qual deles fazer e o que o resultado vai mudar na conduta. Exame sem pergunta clínica clara costuma terminar em dieta restritiva sem necessidade, e criança em crescimento não deve perder grupo alimentar por suspeita solta.

Como preparar a criança para o exame?

O preparo é simples, mas faz diferença no resultado. Em linhas gerais, envolve jejum de algumas horas e ajustes na alimentação do dia anterior. O uso recente de antibióticos também interfere e pode adiar o exame. Ao agendar, a família recebe as orientações completas por escrito, com o passo a passo do dia do teste.

Um lembrete importante: não tire o leite da dieta do seu filho por conta própria antes da avaliação. A restrição sem diagnóstico pode mascarar o resultado dos exames e privar a criança de cálcio e outros nutrientes de que ela precisa para crescer.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre intolerância à lactose e alergia ao leite (APLV)?

A intolerância à lactose é a dificuldade de digerir o açúcar do leite, por deficiência da enzima lactase, e causa sintomas como gases, estufamento e diarreia. A APLV é uma reação do sistema imunológico à proteína do leite de vaca, típica de bebês no primeiro ano de vida. São condições diferentes, com tratamentos diferentes, e o teste respiratório avalia a intolerância, não a alergia.

Como é feito o teste respiratório em crianças?

A criança sopra em um aparelho que mede os gases do ar expirado, em jejum e depois em intervalos regulares após tomar uma solução com lactose ou outro substrato, conforme o teste. O exame não usa agulha, não é invasivo e dura em torno de 2 a 3 horas. É indicado a partir da idade em que a criança consegue soprar no bocal, o que avaliamos caso a caso.

O teste respiratório dói ou tem algum risco?

Não dói e não tem risco relevante. O exame usa apenas o sopro da criança. Quando existe mesmo intolerância ou SIBO, os sintomas habituais, como gases e desconforto, podem aparecer de forma leve durante o teste, e isso faz parte da avaliação.

Preciso de consulta antes de fazer o teste respiratório?

O ideal é sim passar por avaliação antes. Os sintomas de intolerância à lactose, SIBO e outras condições digestivas se parecem muito, e é a consulta que define qual teste é indicado, como se preparar e o que fazer com o resultado. Um exame pedido sem critério pode gerar dieta restritiva sem necessidade.

Dra. Juliana Corrêa, gastropediatra em Campos dos Goytacazes

Dra. Juliana Corrêa — Gastropediatra CRM/RJ 5299302-6 | RQE 30792. Residência em Pediatria pelo Hospital Infantil em Vitória/ES e em Gastroenterologia Pediátrica pela UNICAMP, Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente pela UNICAMP, com estágio no Cincinnati Children's Hospital (EUA). Atende em Campos dos Goytacazes, RJ, e famílias de toda a região.

A barriga do seu filho vive estufada e você quer uma resposta? Realizo a avaliação e os testes respiratórios no consultório em Campos dos Goytacazes. Para quem mora em cidades vizinhas, a primeira conversa pode ser online.

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Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não substitui a consulta médica. Diante de qualquer sintoma, procure avaliação profissional.

Fontes e referências:

  • Rezaie A. et al. Hydrogen and Methane-Based Breath Testing in Gastrointestinal Disorders: The North American Consensus. Am J Gastroenterol, 2017.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) — documentos científicos sobre intolerância à lactose na infância. sbp.com.br